Na quinta-feira, 30 de julho de 2026, a Coinkite divulgou que suas carteiras de hardware Coldcard vinham gerando frases-semente de forma previsível desde março de 2021. Nas horas seguintes, atacantes começaram a esvaziar carteiras em ondas. É o tipo de falha que contraria a premissa inteira do produto: uma carteira fria existe justamente para que a chave nunca dependa de software confiável.
Este artigo reúne o que se sabe até 4 de agosto de 2026: o que quebrou, quem está exposto, o que fazer se você tem uma Coldcard, o golpe de phishing que veio na sequência e uma leitura de mercado que talvez surpreenda — o preço do Bitcoin quase não se mexeu com tudo isso.
O que aconteceu
Uma carteira de hardware gera sua frase-semente a partir de entropia: números aleatórios de verdade, produzidos por um chip dedicado. Se essa aleatoriedade é real, o espaço de chaves possíveis é grande demais para qualquer computador percorrer. Se ela é fraca, o espaço encolhe — e o que era impossível vira questão de tempo de processamento.
Foi exatamente isso. Uma alteração de integração feita em março de 2021 passou a rotear a geração da semente por um caminho de software previsível em vez do gerador de aleatoriedade do hardware. Havia uma verificação de segurança no código, mas ela apenas conferia se a configuração existia — não se estava de fato ativa. O bug atravessou cinco anos sem ser notado.
O efeito, segundo a análise técnica publicada pelo Blockhead: nos aparelhos mais atingidos a entropia caiu de 128 bits para cerca de 40 bits. Não é uma redução incremental, é a diferença entre inviável e viável. Um atacante com recursos modestos consegue varrer 40 bits e simplesmente adivinhar as chaves.
A carteira continuou pedindo 24 palavras, mostrando 24 palavras e funcionando normalmente. O que mudou foi invisível ao usuário: o conjunto de sementes que ela era capaz de sortear encolheu a ponto de caber em uma busca por força bruta.
A escala do roubo
Os ataques vieram em ondas, e os números subiram a cada dia. Um alerta honesto: as fontes divergem, porque o rastreamento on-chain seguiu correndo enquanto as matérias eram publicadas. Os valores abaixo são o que cada veículo apurou, com a data de cada apuração.
- Onda 1 (30 de julho): 1.196 endereços esvaziados em 41 minutos, cerca de 1.083 BTC (~US$ 70,2 milhões no momento).
- Onda 2 (31 de julho): uma varredura de 25 minutos drenou aproximadamente 594 BTC (~US$ 38 milhões) de cerca de 500 carteiras.
- Onda 3 (fim de semana): 208 BTC retirados de 1.912 endereços.
- Onda 4 (segunda-feira, 3 de agosto): a Fortune fecha o total em cerca de 1.816 BTC, quase US$ 116 milhões, em mais de 5.200 endereços.
Outros levantamentos do mesmo período trabalham com números menores porque cortaram a contagem antes: o Blockhead falava em 1.367 BTC (~US$ 88,6 milhões) até 2 de agosto, e veículos brasileiros como Brazil Journal e InfoMoney reportaram cerca de US$ 110 milhões com base em dados da Galaxy Research. Todos apontam para a mesma ordem de grandeza. E, no momento em que este texto foi escrito, o caso ainda não estava encerrado.
A falha foi identificada pelas equipes de engenharia e segurança da Block. Parte da imprensa levantou que ferramentas de inteligência artificial teriam ajudado a encontrar o bug — a própria Coinkite afirmou ter passado um modelo de ponta pelo próprio código sem que ele detectasse o problema. Trate essa parte como relato, não como fato estabelecido: as fontes não convergem.
Quem está exposto
Nem todo aparelho está no mesmo nível de risco, e vale conferir o seu antes de entrar em pânico ou, pior, antes de relaxar.
Coldcard Mk2 e Mk3
São os severamente afetados: entropia reduzida a cerca de 40 bits. A correção veio na versão 4.2.0 do firmware, mas atenção ao ponto que confunde todo mundo — atualizar o firmware não conserta uma semente que já nasceu fraca. Se a sua frase foi gerada no aparelho durante o período do bug, ela continua vulnerável para sempre.
Coldcard Mk4, Mk5 e Q
Afetados de forma parcial, com mitigação parcial: a entropia caiu para cerca de 72 bits, e a análise da Block estima algo próximo de 32 bits efetivos. Menos exposto que o Mk3, longe de ser confortável.
Tapsigner, Opendime e Satscard
Rodam software diferente e não são atingidos por essa falha.
Dois fatores reduzem ou eliminam o risco, segundo a orientação da própria fabricante: sementes criadas com 50 ou mais rolagens de dado físico (o recurso de entropia manual da Coldcard) e o uso de uma passphrase separada, aquela palavra extra que não fica gravada no aparelho. Quem fez qualquer um dos dois está em situação melhor.
O que fazer agora
Se você tem ou já teve uma Coldcard, a orientação da Coinkite em carta aberta é direta: mova os fundos o quanto antes. O roteiro prático:
- Identifique onde a semente nasceu. A pergunta não é qual aparelho você usa hoje, e sim em qual aparelho e firmware aquelas 24 palavras foram geradas pela primeira vez. Semente importada de outro lugar, ou criada antes de março de 2021, não passou pelo caminho quebrado.
- Atualize o firmware para uma versão corrigida (4.2.0 ou posterior nos modelos afetados). Isso não salva a semente antiga — serve para que a próxima nasça com aleatoriedade real.
- Gere uma semente nova, de preferência usando as rolagens de dado físico, e anote a frase no papel antes de qualquer outra coisa.
- Teste com um valor pequeno. Mande uma quantia simbólica para o endereço novo, confirme o recebimento e confirme que você consegue restaurar a carteira a partir da frase anotada. Só então mova o restante.
- Transfira tudo da carteira antiga para a nova e considere a antiga permanentemente queimada. Não reutilize, não guarde "um pouquinho" nela.
Não digite sua frase-semente em nenhum site, formulário, planilha, chat ou "verificador de carteira afetada". Nenhuma verificação legítima pede as suas palavras. O único lugar onde a frase pode ser digitada é o próprio aparelho, no processo de restauração.
A segunda onda é o phishing
Sempre que um caso desses vira manchete, a onda seguinte é de golpes — e aqui ela tem um agravante. A Coinkite passou a ser criticada por manter e-mails de clientes armazenados, o que significa uma lista de pessoas que comprovadamente possuem carteira de hardware — exatamente o público-alvo de um golpista.
Espere receber e-mails muito bem feitos, com o tom certo e urgência, oferecendo "migração automática", "ferramenta de verificação" ou "reembolso das vítimas". Regras simples: nunca clique em link de e-mail para tratar disso, digite o endereço do fabricante à mão, e desconfie de qualquer coisa com prazo curto. Pressa é a ferramenta favorita de quem quer sua semente. Vale a mesma lógica dos erros que custam caro para iniciantes em cripto: o prejuízo raramente vem do mercado, vem da decisão tomada com o coração acelerado.
E o mercado? Quase nada
Aqui está a parte contraintuitiva. Um roubo de nove dígitos na carteira de hardware mais respeitada do Bitcoin parecia material para uma queda feia. Não foi o que aconteceu. A Fortune registrou menos de 1% de variação em Bitcoin e Ethereum desde a divulgação; veículos brasileiros chegaram a apontar cerca de 3% em 24 horas, com o BTC na casa dos US$ 62 mil. Nas duas leituras, a conclusão é a mesma: o preço seguiu essencialmente lateral, dentro da faixa em que já andava antes.
Isso ensina algo que vale mais que a manchete. Notícia grande não é sinônimo de movimento grande — e o inverso também é verdadeiro: boa parte dos movimentos relevantes acontece sem manchete nenhuma, de madrugada, sem aviso. Quem opera reagindo a notícia vive comprando o susto e vendendo o alívio. Quem trabalha com níveis definidos antes decide com a cabeça fria e deixa o preço avisar quando chegar lá.
Onde alertas de preço entram (e onde não entram)
Vamos ser honestos sobre o limite da ferramenta, porque num assunto de segurança isso importa: o Alarm Crypto monitora preço, não a sua carteira. Nenhum alarme de preço teria impedido esse roubo, avisado sobre uma semente fraca ou detectado uma transação saindo do seu endereço. Quem promete isso está vendendo outra coisa.
O que um alarme resolve é o problema vizinho, e ele apareceu bastante nesses dias. Se você precisou mover fundos às pressas, quis acompanhar como o mercado reagia enquanto resolvia o resto, ou simplesmente quer saber se o Bitcoin sai da faixa atual sem passar o dia atualizando o gráfico — é para isso que serve. O monitoramento roda no servidor, em 6 exchanges em paralelo, e o aviso chega com som forte mesmo com o app fechado e o celular bloqueado. É a diferença entre saber agora e saber depois, que é o assunto de por que cinco minutos de atraso custam dinheiro.
Se você quer montar isso direito, comece por como definir alertas de preço para Bitcoin — e, se a sua leitura é de que o susto abriu uma janela, vale entender como saber quando uma cripto caiu o suficiente para virar oportunidade.
Perguntas frequentes
Minha Coldcard está com o firmware atualizado. Estou seguro?
Não necessariamente. O firmware corrigido garante que sementes novas nasçam com aleatoriedade real, mas não conserta a semente que já foi gerada. Se as suas 24 palavras nasceram no aparelho entre março de 2021 e a correção, o caminho é gerar uma semente nova e migrar os fundos.
Como sei se a minha semente é uma das fracas?
Não existe um teste caseiro confiável, e qualquer serviço que se ofereça para "verificar" pedindo suas palavras é golpe. O critério prático é o histórico: modelo do aparelho, época em que a frase foi criada e se você usou rolagens de dado ou passphrase. Na dúvida, trate como comprometida e migre — o custo de migrar por precaução é uma tarde; o custo de errar para o outro lado é o saldo inteiro.
Usei passphrase. Continuo exposto?
A passphrase adiciona um segredo que nunca ficou guardado no aparelho, então ela melhora bastante a sua situação em relação a quem não usou. Ainda assim, a recomendação da fabricante é migrar. Segurança em camadas não é motivo para manter uma camada quebrada embaixo.
Carteira de hardware ainda vale a pena depois disso?
Vale. O episódio não mostra que hardware wallet é uma ideia ruim, mostra que ela é um produto de software como qualquer outro e que auditoria de código é indispensável. O aprendizado prático é diversificar: não concentrar tudo em um único fabricante, usar entropia própria quando o aparelho oferece e manter uma cópia da frase fora de qualquer dispositivo.
O Alarm Crypto avisa se minha carteira for movimentada?
Não. O app monitora cotações e dispara alarmes de preço e de variação percentual em 6 exchanges — ele não observa endereços, saldos nem transações on-chain. Para vigilância de carteira você precisa de uma ferramenta de monitoramento de blockchain, que é outra categoria de produto.
Conclusão
O caso Coldcard é um lembrete desconfortável de que "cofre" é uma metáfora: por baixo, existe código escrito por gente, e código carrega erros que podem dormir cinco anos. Se você tem um aparelho afetado, a ação é simples e não deveria esperar — confira onde a semente nasceu, gere uma nova em firmware corrigido, teste com pouco e migre tudo. Depois disso, desconfie de todo e-mail sobre o assunto pelas próximas semanas.
E fica a leitura de mercado que o episódio entregou de brinde: o preço do Bitcoin mal se mexeu com uma notícia enorme. Manchete e movimento são coisas diferentes. É por isso que faz mais sentido marcar os níveis que importam para você e deixar um alarme avisar quando o preço chegar lá — de preferência com som alto, porque o mercado não escolhe o horário. Este artigo é informativo e não constitui recomendação de investimento.